Segurança alimentar: melhor nunca é demais

Os produtos alimentares nunca foram tão seguros, variados ou com o nível de qualidade que têm hoje. Apesar disso, existe uma discrepância entre os factos e as percepções do público. À indústria alimentar resta comunicar abertamente, fornecer informação objectiva e apostar em tecnologias de segurança actuais e de alta qualidade.

O público é repetidamente alarmado por casos isolados de violação da segurança e higiene alimentar, e alguns desses incidentes são escandalosos. Em última análise, não é possível garantir a 100 % que as empresas não violam as suas obrigações para com os consumidores ou mesmo que não cometem deliberadamente actos criminosos. No entanto, as políticas são frequentemente definidas em função de casos individuais extremos, com o objectivo de mostrar o carácter determinado da actuação. É claro que isto não põe fim aos escândalos; simplesmente contribui para dar mais impacto mediático em vez de promover um fluxo de informação mais aberto e o desenvolvimento de soluções baseadas em conhecimento. A esmagadora maioria de produtores alimentares que são cumpridores e exemplares estão virtualmente indefesos contra essa tendência mediatizadora e alarmista. A única opção que lhes resta e passar à ofensiva com informação objectiva, sem deixar de ter em conta que os assuntos alimentares são percebidos de forma muito emocional pelo público e é também desse modo que são tratados pela comunicação social.

 

Em cada caso, os produtores alimentares necessitam de compreender que as suas acções se vão tornar mais transparentes ao público, seja qual for a sua política de informação. Esse acréscimo de transparência pode advir por via de mudanças nas normas sobre informação dos consumidores, pela publicação de ‘ratings’ em portais públicos ou privados e ou por campanhas de ONGs e associações de consumidores. Um estudo realizado pela Federação Alemã das Indústrias de Alimentos e Bebidas (BVE) e pela GfK revelou que o sabor dos alimentos é o factor mais importante para 96 % dos consumidores alemães. A segurança e saúde vem em segundo lugar com uma pontuação muito próxima (93 %), o que deve ser tido em conta pela indústria.

Harmonização de normas

Em geral, pode dizer-se que as normas, directrizes, directivas e regulamentações mais numerosas e mais exigentes falharam o objectivo de tornar mais clara a segurança alimentar. Por esta razão, a tendência para uma normalização e harmonização transfronteiras deve ser ser continuada. Simplesmente não faz sentido ter um mercado aberto, globalizado e baseado na livre circulação de mercadorias e, ao mesmo tempo, manter a diversidade de normas de país para país. Por este motivo, a Iniciativa de Harmonização Global (GHI), iniciada em 2004 pela divisão internacional do Institute of Food Technologists (IFT, dos EUA) e a Federação Europeia da Ciência e Tecnologia Alimentar (EFFoST), promove a harmonização da legislação e regulamentação em matéria de segurança alimentar. A iniciativa GHI procure disseminar informação credível e cientificamente fundamentada, para exercer uma influência objectiva e positiva na política alimentar mundial.

Medidas de monitorização

Os alimentos devem ser isentos de substancias estranhas e as embalagens devem ser impecáveis e imaculadas. Esta matéria não está sujeita a discussão e o leque de medidas destinadas a assegurar esse princípio está em constante actualização. Os sistemas actualmente disponíveis incluem detectores de metais, dispositivos de inspecção por raios X (agora também disponíveis em modelos mais acessíveis) e vários equipamentos de monitorização óptica. Estes continuarão a evoluir, graças à evolução da tecnologia de câmaras, e as possibilidades estão longe de esgotadas. Ondas de muito alta frequência serão usadas no futuro para a monitorização da segurança alimentar. Investigadores do Instituto Fraunhofer para a Física de Alta Frequência e Técnicas de Radar (FHR, Wachtberg, Alemanha), desenvolveram um scanner de materiais designimageado SAMMI (Stand Alone MilliMeter wave Imager), com 50 cm de largura e 32 cm de altura, praticamente o mesmo que uma impressora laser. O novo scanner não tem qualquer dificuldade em lidar com substâncias não metálicas e não transparentes e pode ser usado em monitorização de produtos, controlo da qualidade, bem como em análise de materiais em laboratório. É também capaz de detectar aos mai s pequenas diferenças de material, mesmo as que poderiam escapar a um equipamento de raios X. Diversamente do que sucede com um scanner de raios X, o SAMMI pode distinguir entre diferentes recheios de pralines, ou isolar diversas misturas de gomas que apresentam propriedades de absorção similares ou idênticas. O novo scanner tem dois discos rotativos em lados opostos. Cada disco está equipado com uma antena transmissora e receptora. Um pequeno transportador desloca a amostra entre as antenas, que transmitem ondas electromagnéticas na gama EHF em torno de 78 GHz. As várias partes da amostra atenuam o sinal com diferentes intensidades, o que permite contrastar as diferenças de composição. Os cientistas pretendem actualizar o sistema para o utilizar na gama dos 2 THz. Isto permitirá detectar não só diferenças de estrutura mas também diferentes tipos de plásticos. O sensor de ondas EHF está actualmente a ser adaptado para uso industrial, com o objectivo de poder atingir a inspecção de produto à velocidade de 6 m por segundo.

Outro projecto decorre no Instituto Fraunhofer para as Tecnologias Modulares de Estado Sólido (EMFT, Munique, Alemanha) e está a abrir o caminho à utilização de novos tipos de nanosensores para monitorização alimentar. Estes sensores usam a fluorescência para tornar visível o teor de ATP em células humanas e animais, permitindo tirar conclusões sobre actividade metabólica e, por conseguinte, sobre o possível dano causado por certos aditivos. As nanopartícolas usadas como sensores são conformes com os requisitos mais exigentes: não são tóxicos para as células, passam facilmente pelas membranas das células, e podem ser guiados precisamente para onde se pensa que pode estar a substância. Esta nova técnica, que inicialmente se destinou a eliminar os testes com cobaias animais, está actualmente a ser desenvolvida para outras aplicações, tais com a determinação da qualidade e potabilidade de carnes embaladas.  Com esta finalidade, estão actualmente a ser desenvolvidos nanosensores para determinar as concentrações de oxigénio e aminas tóxicas.
Vários institutos de investigação estão a trabalhar no desenvolvimento de sensores em linha para detectar e analisar biofilmes em locais inacessíveis das máquinas de produção. Estes sensores permitirão análises mais detalhadas  de micro-organismos e da sua condição metabólica. Serão também capazes de detectar mudanças causadas pelo biofilmes nas características superficiais dos equipamentos de produção.

Em conclusão, pode afirmar-se que a segurança alimentar vai contar com meios novos e mais completos, os quais podem implicar investimentos com reflexo nos preços de venda dos produtos. De resto, e esta é uma tendência assinalada no mercado alimentar actual, os consumidores estão mais preparados para pagar um pouco mais, desde que a segurança alimentar lhes seja garantida de forma justa e sustentável.

Nos dias 27 a 30 de Março, o sector das tecnologias alimentares vai encontrar-se de novo em Colónia, Alemanha, para mais uma edição da Anuga FoodTec. Com mais de 1300 expositores de 35 países, a Anuga FoodTec proporciona aos profissionais do sector uma plataforma de informação e de negócio que abrange todo o espectro de tecnologias e de investimentos para todos os segmentos da indústria alimentar.

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