Entre a Cegueira e a Visão

Que relação pode haver entre a crítica do Ensaio Sobre a Cegueira (Saramago) e o packaging design? Estarão os designers com falta de visão?

 

image Se já leu ou vai ler o Ensaio sobre a Cegueira, então deve ler The Sight Sickness, de Christine Faltz Grassman. José Saramago, sabemos quem é. Christine Grassman é advogada, professora de inglês, fez mestrados em várias universidades e vive com o marido e dois filhos em Nassau, Nova Iorque. É também cega de nascença.
Os dois livros proporcionam contraditório para uma reflexão sobre a cegueira e a visão. A exclusão social dos cegos é um sintoma/resultado da incapacidade dos não cegos para usar os outros sentidos. A ideia de "deficiente" é um dos maiores disparates da cultura humana (melhor dito, uma das falhas de cultura). O disparate tem consequências aterradoras. A nível global o número de deficientes deve exceder os mil milhões. Mesmo em economias avançadas, a exclusão é visível: na Alemanha, apenas 15% dos cegos têm emprego. Para além da discriminação, isto significa que se está a ignorar um grupo de pessoas cuja capacidade para usar os outros sentidos é muito superior à da maioria!

Na novela de Grassman, as vítimas de uma praga de cegueira são colocados num gueto, revoltam-se e forçam os seus guardas a passar pela experiência de não ter visão. Andreas Heinecke,  tem estado a levar essa ideia à prática, desde há vários anos, organizando sessões e exposições "Dialogue in the Dark" em que os visitantes passam pela experiência de partilhar um espaço e interagir com outras pessoas, em total escuridão. Nessas exposições, exercitam os outros sentidos e a melhor ajuda que encontram é a que é prestada por… cegos.A experiência das exposições "dialogue in the dark" deu origem a uma diversificação deste negócio. Heinecke também organiza sessões de "diálogo no silêncio".

image Heinecke acabou por criar um "franchising social" que tem suscitado interesse e procura um pouco por todo o mundo. Empresas e outras organizações têm aderido a esta experiência para formação e treino dos seus colaboradores. À saída, saem mais capazes de partilhar, de confiar, mais cientes do valor da cegueira e do disparate que é considerar os cegos como "não habilitados".

Qual a relação entre o conceito de "diálogo na escuridão" com o mundo da embalagem? O Ensaio de Saramago, a anti-sequela de Grassman e as sessões escuras de Heinecke podem  ajudar o packaging designer?

Sim, podem. A percepção visual desempenha um papel de primeira ordem na relação dos consumidores com a embalagem e com a marca, ao ponto de a embalagem não funcionar sem essa percepção. Sem visão, qualquer consumir está impedido de reconhecer produtos e marcas e de fazer a sua escolha. As percepções não visuais são pouco ou nada trabalhadas pelo packaging design. Em muitos casos, as embalagens são feitas para quem está privado de todos os sentidos menos a visão, o que significa que não se usam todos os canais de comunicação disponíveis para comunicar com o consumidor. Sem visão, como distinguir o champô do amaciador, se o que distingue as embalagens é apenas uma palavra impressa? Na escuridão, o olfacto, a audição e o tacto funcionam. Infelizmente, a esmagadora maioria das marcas e das embalagens não têm cheiro, som ou textura… Isto significa que o sucesso das marcas e das embalagens está dependente de um só sentido e não tem qualquer outra ajuda!

Porquê usar apenas a percepção visual se, como disse Exupery, "o essencial é invisível aos olhos"?
Há muito que os profissionais do packaging design e do branding reconhecem a importância dos efeitos "multi-sensoriais". Pete Hollingsworth, director criativo da FutureBrand é um dos que insiste na combinação de vários sentidos. Já existem empresas especializadas "scent marketing": perfumar ambientes, para que o consumidor, quando vê um produto num cartaz também possa experimentar o seu perfume. A impressão de embalagens também pode tirar partido dos "vernizes de aroma", comercializados entre nós pela Induquímica. As chamadas "tecnologias da informação" permitem aceder a palavras ou música gravada, usando o telemóvel ou um qualquer outro dispositivo.

Quem passou pela experiência de perder a visão sabe que a maior dificuldade não é a privação do sentido que falhou, mas a inabilidade para usar os que estão intactos. No sector da embalagem, o design multi-sensorial ainda está na infância. Ideias e conceitos como o scent marketing ou mesmo o 5D marketing (usando os 5 sentidos) ainda são olhadas como "coisa para produtos de luxo". Teimosamente, joga-se tudo ou quase tudo no sentido visão. Mas é… falta de visão.

 

Referências:

O Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, é fácil de encontrar em livrarias.

The Sight Sickness, de Christine Faltz Grassman, foi publicado em Março de 2009 pela iUniverse (Bloomingdon, Indiana, EUA), mas pode ser facilmente localizado na internet: www.iuniverse.com . Pode conhecer melhor a autora através do seu blog: http://cgrassman.wordpress.com. E também pode escrever-lhe: cgrassman1009@gmail.com

Sobre as exposições e workshops "Dialogue in the Dark", ver www.dialogue-in-the-dark.com . Contacto:info@dialogue-in-the-dark.com .

A opinião de Pete Pete Hollingsworth, referida no texto, pode ler-se em http://popsop.com/32132/comment-page-1.

Exemplo de empresa se "scent marketing" é a Prolitec, de Milwaukee, EUA (www.prolitec.com). Existe um instituto de "scent marketing" com actividade em vários países: www.scentmaketing.org 

Para mais informação sobre os "vernizes de aroma" da Scentific, ver o website da Induquímica: http://www.induquimica.pt/pt/entrada/1-derstaques/60-aroma.

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